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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

cachorro é cristão, gato é pagão

Outro dia vi uma vizinha aqui do condomínio onde moro brigando com seu gato, um siamês um tanto quanto gordo para um gato. Erro comum de quem não conhece a personalidade desses felinos é brigar e, principalmente, bater neles. Cachorros e gatos têm personalidades distintas e cabe a seus donos conhecê-las. Cachorro é cristão, gato é pagão. Cachorros são altruístas, gatos egoístas, o que não quer dizer que uns sejam mocinhos e os outros bandidos, são características de personalidade que os definem, só isso.

O melhor amigo do homem não ganhou a fama por acaso. Mesmo quem não aprecie animais (uma pena!) sabe que qualquer cachorro, do vira-lata à raça mais pura, morre de amores pelos seus donos e tem apego por eles independentemente da forma como é tratado. Cachorro, como bom cristão, dá a outra face se for castigado por alguma traquinagem que tenha feito e não guarda rancores. Quando eu era criança, tínhamos uma cachorra chamada Diana, uma vira-lata que apareceu em casa e conquistou minha irmã com seu olhar de cachorro sem dono e foi ficando. Toda vez que ela estava no cio era um transtorno porque aparecia cachorro de tudo quanto era lugar invadindo o quintal da minha casa, o que deixava minha mãe alucinada. Uma vez, ela perdeu a paciência e tentou resolver o problema da pior forma. Atacou Diana com um pedaço de pau e, no mesmo instante, se arrependeu. Eu presenciei a cena e nunca vou me esquecer da minha mãe sentada no batente da porta, chorando, também jamais esquecerei do olhar piedoso da nossa cachorra, cabeça sangrando e, mesmo assim, consolando a dor da minha mãe com lambidas carinhosas no braço que a atacou.

Também tive gatos, e não foram poucos. Cresci convivendo com gatos e cachorros num tempo em que todo mundo os tratava como gatos e cachorros. Não havia pet shops, rações, banho e tosa, roupinhas e brinquedinhos e raramente eles eram levados a veterinários; em compensação, nunca ouvi falar de um bichinho de estimação que tivesse depressão, trauma psicológico ou obesidade. Tive um gato angorá preto, peludo ao extremo e um cachorrinho gordinho, perninhas curtas e também preto. Contrariando o mito, os dois se davam muito bem. Dormiam juntos do lado de fora da casa, o gato nas costas do cachorro, como os dois eram pretos parecia que o cachorro tinha uma corcunda. Uma vez o meu gato sumiu durante uma semana, pensei que ele tivesse morrido. Apareceu de repente e eu chorei de alegria. Foi encontrado dentro de uma fábrica de peneiras, dormindo debaixo das máquinas. 

Gatos são pagãos, isto é, são individualistas e chegados num prazer, como a maioria dos seres humanos. Gato não dá a outra face, por isso não deve ser tratado como cachorro. Gato é noturno, passa o dia dormindo e dá suas escapadas à noite, como todo boêmio. Durante o dia gosta de uma janela, fica ali deitado, ora dormindo, ora observando o movimento. O gato da minha vizinha levou bronca e apanhou justamente por dar as suas escapadas noturnas. Notei que ele está um pouco gordo, parecendo o Garfield. Mesmo gordo, continua sendo gato. Minha vizinha deveria aprender um pouco mais sobre ele. Iria ver que foi um erro bater nele, assim como seria se ela tivesse um cachorro. Com a diferença de que  o cachorro não levaria isso a sério e continuaria abanando o rabo pra ela. Já o gato não tem esse temperamento, é mais frio e calculista, se começar a faltar comida, aconchego e carinho, talvez ele não volte da próxima escapada noturna.