Translate

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Presidenta ou presidento?

Outro dia estava, confortavelmente em pé, num dos muitos ônibus do estupendo transporte coletivo de São Paulo, quando entrou um camelô carregado de garrafas de água mineral, doces, chocolates e afins. Como todo bom camelô, falava pelos cotovelos para atrair a atenção dos passageiros agarrados feito chiclete aos seus telefones celulares. Devido ao calor sufocante, ele apostava todas as suas fichas nas geladíssimas garrafinhas de água mineral. 

A Dilma Rousseff avisou que hoje vai chegar quase aos 40 graus, pessoal, então aproveita a água mineral direto do freezer! 

Só o fato de citar a candidata já provocou sede em muitos passageiros. Satisfeito, o camelô continuou sua propaganda apelando para o desconforto dentro do busão e, na empolgação, citou que o Aécio Neves também tinha confirmado a previsão do aumento da temperatura. Aí, eu intervi dizendo, com toda a boa vontade, que, se a Dilma disse que o calor iria aumentar, o natural seria o Aécio dizer que estava chegando uma frente fria. O camelô interpretou isso como efeito da campanha para segundo turno e lascou essa:

Olhaí, pessoal, um dos dois tem de ganhar, né? Pra mim tanto faz, ganhando ela ou ganhando ele, segunda-feira de madrugada eu já tenho de tá aqui batalhando pelo meu ganha pão porque o deles já tá garantido.

Sábias palavras, o que não quer dizer que a voz do povo é a voz de Deus. A postura do camelô é parecida com a minha e com a de muitos brasileiros e brasileiras porque a polarização da acirrada campanha até agora só abriu espaço para agressões mútuas e nenhuma proposta razoável de melhoria para o país. Tucanos e bonezinhos vermelhos abusam de sofismas, meias verdades e meias mentiras. Esse clima de confronto se espalha pelas redes sociais, aumentando a cada dia a intransigência de ambos os lados.  A coisa chegou a tal ponto que me recusei a assistir os debates logo após o da Band, também diminuí minhas passagens pelo Facebook. Assim como o camelô, fui cuidar da minha vida. Hoje, dou uma trégua para ver o debate da Globo, sem muitas esperanças de que a coisa mude. 

Uma palavra que ganhou força nestas eleições foi desconstrução. Belo eufemismo para baixaria. O mineirinho "filhinho de papai" se abrigou nesta palavra para tentar mostrar que a baixaria vinha só do lado da mineirinha gaúcha. Não durou muito tempo, marqueteiro e assessores colocaram-no no mesmo caminho, ou seja, tentar mostrar que os seus corruptos são menos corruptos do que os dela, e vice-versa. 

Como funcionam os sofismas e as citações tidas como verdades, mas desprovidas de qualquer fundamento? Observem o título lá em cima. Quando a mineirinha gaúcha foi eleita, surgiu, pela primeira vez na história deste país a palavra presidenta. Entre outras razões, o partido dos bonezinhos vermelhos justificava o adjetivo presidente como machista. Sofisma! Se fosse machista seria presidento. Ouro exemplo está no parágrafo anterior - filhinho de papai. Não fui eu que falei, adivinha quem foi? Ele mesmo! 

Por trás disso está a insinuação de que alguém que, na juventude, não comeu do pão que o diabo amassou, não pode ser presidente porque nunca vai estar do lado dos pobres e oprimidos, vai governar só para os ricos,  empresários e banqueiros. Bom, se esta afirmação tivesse fundamento, Hitler teria feito um governo exemplar na Alemanha nazista, afinal ele foi um jovem ferrado na vida, que vivia na fila da sopa, que foi preso várias vezes por incitar o povo. A verdade é que ele governou para a elite dos arianos e "democraticamente" exterminou milhões de judeus, além de comunistas, negros, ciganos, crianças defeituosas e, de quebra, provocou a segunda guerra mundial. 

Já o "filhinho de papai" também vive pregando que é preciso encerrar este ciclo de roubalheiras do lulopetismo. Esquecem, ambos, que já foram tão íntimos e tão companheiros a ponto de inspirarem a criação da chapa  "Lulécio", lembram?  Lembram também de o ex-governador de Minas ter ficado na moita durante as campanhas de Serra e Alckmin para presidente, preferindo tecer comentários elogiosos ao companheiro Lula?

A minha tristeza maior é ver pessoas sendo levadas a defender com unhas e dentes argumentos fantasiosos e maliciosos de ambos os lados como se o Brasil estivesse para decidir se continua no paraíso e repele a ameaça da volta do fantasma da pobreza ou se acaba com a corrupção e volta a crescer. Como se, em janeiro de 2015, a nação fosse interromper o sonho ou o pesadelo e começar o sonho ou o pesadelo. É por isso, que acho que o camelô está certo; mas, ao mesmo tempo, sei que isso é simplificação. 

O que aconselho é: abram os olhos, não acreditem em tudo o que vocês escutam; pensem, sejam razoáveis e tolerantes com ideias contrárias, não caiam na armadilha das insinuações banais, não entrem nessa de luta de classes, não dividam o Brasil entre possuídos e despossuídos; quem anda de carro não é, necessariamente inimigo de quem anda de ônibus, de moto ou de bicicleta; quem mora em bairros melhores não é necessariamente rico e nem inimigo de quem mora na periferia; quem mora no sul e no sudeste não é inimigo de quem mora no norte e nordeste e procurem não levar muito a sério a enxurrada de "denúncias" à beira das eleições. 

Finalmente: vote consciente, mesmo que esteja desestimulado. Não caia na armadilha do voto nulo ou em branco. Manifeste-se, é o seu direito de cidadão! E, quando acordar, na segunda-feira, levante feliz e disposto a construir um Brasil melhor, com presidenta ou com presidento.