Translate

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Não sou Charlie, sou a liberdade de expressão

O hediondo atentado praticado contra o jornal francês Charlie Hebdo no dia 7 de janeiro foi injustificável e isso é ponto pacífico, mas não é motivo para eu entrar na corrente do Eu sou Charlie. Não sou Charlie, sou a liberdade de expressão. Não dá para ignorar o quanto de demagogia corre mundo sob o slogan Eu sou Charlie. Pessoas que sempre defenderam a islamofobia, o antissemitismo, a intolerância a qualquer tipo de crítica estão agora posando de liberais. Das charges publicadas pelo semanário francês as quais tive a oportunidade de ver, muitas não engoli, mas sempre defenderei a liberdade de expressão, mesmo que esta liberdade desagrade às religiões e aos fanáticos religiosos

Humor é coisa muito séria, é uma das grandes formas encontradas pelo ser humano de mostrar a sua insatisfação ou desacordo seja com o que for de uma maneira que provoque riso e reflexão. Rir é uma das coisas mais saudáveis que existe dependendo, é claro, de quem seja o alvo da gargalhada. Assim como eu, milhares de pessoas podem ter rido de algumas charges do Charlie num primeiro momento e, em seguida, inconscientemente, ter se sentido culpado pelo próprio riso. Algo assim como rir de piadas sobre deficientes físicos, negros, nordestinos, pobres, homossexuais ou qualquer outra minoria. Sabe aquela coisa de perder o amigo, mas não perder a piada? Por exemplo: você está numa reunião com amigos e surge uma piada desse tipo. Quase todo mundo ri, alguns não gostam mas riem em consideração ao amigo que contou a piada. Se alguém não gostar e fizer qualquer reprovação pode ser classificado de "politicamente correto" e ficar marcado para sempre no grupo. Poucos terão a coragem de assumir esse papel, rirão e ficarão com aquela sensação incômoda de rir de algo que não era para ser motivo de piada. Quando a anedota for de conteúdo religioso, a coisa piora; porém, não é motivo para ninguém atirar no cara que contou a piada.

Antes do atentado, o público do semanário francês era circunscrito a uma pequena parcela da população francesa e a admiradores dos seus excelentes cartunistas mundo afora. Certamente que muita gente que hoje está dizendo que é Charlie não teria a tolerância que agora diz ter; aliás, a grande maioria nem sequer sabia que diabo era Charlie Hebdo. Tem gente imaginando um jornal revolucionário de resistência a ditaduras religiosas ou laicas, recheados de artigos políticos quando o objetivo do jornal era usar o humor para atingir não só todas as religiões como também figuras públicas, o moralismo, a sexualidade e os costumes. O nosso O Pasquim tinha um alvo muito mais claro: a ditadura militar. Não resistiu a tanta censura e nunca ninguém ousou dizer Eu sou Pasquim.

Acredito que todo extremista religioso depois de ter praticado um atentado e estar acuado pelas forças contrárias prefere morrer a se entregar, tornando-se assim um mártir do movimento. Será que a mesma  coisa passaria na cabeça dos cartunistas que foram executados a sangue frio? Improvável que eles, consagrados, quase todos em idade avançada almejassem ser mártires ou heróis, muitos menos os policiais e reféns mortos naquela semana fatídica. As potências do mundo ocidental tem esse gosto por mártires e heróis como também a predisposição para ampliar e jogar holofotes sobre suas catástrofes e não dar muita atenção às desgraças oriundas de países periféricos e pobres. Antes e depois do 11 de setembro ataques terroristas tem acontecido com frequência na África e no Oriente Médio, mas nunca despertam a atenção do mundo ocidental. Quase paralelo ao atendado na França, os fanáticos do Boko Haram dedicam-se a um massacre na Nigéria, nação mais populosa da África. Em dez dias são assassinadas duas mil pessoas (homens, mulheres e crianças). A terra está coberta de cadáveres. O Boko Haram também inaugurou a modalidade "criança-b0mba", utilizando-as em atentados. É o mesmo grupo que frequenta a mídia, raptando meninas para servirem como escravas sexuais.   As atrocidades do Estado Islâmico, da Al Qaeda, da guerra na Síria, os meninos soldados que já não são exclusividade do continente africano, além de muitos outros casos de terrorismo visitam diariamente os noticiários no mundo todo e nenhum deles parece dar motivo a passeatas como a que aconteceu no último domingo em Paris.

Sinceramente, o ser humano é o animal mais difícil de entender. Assistimos passivamente às atrocidades cometidas nas periferias do planeta como se isso já fizesse parte do nosso cotidiano. Esta semana o jornal Charlie Hebdo teve sua edição de mais de três milhões de exemplares esgotada, teve gente acordando cedo para comprar um jornal que até a semana passada nem sabia que existia. Exemplares antigos chegaram a ser negociados a US$ 400 a unidade. Tem muita gente ganhando dinheiro vendendo souvenirs (camisetas, bonés, canecas...) Je suis Charlie. Agora, vá pedir a alguém para contribuir com R$ 30 mensais aos Médicos sem Fronteiras

O presidente da França, François Hollande, que andava meio no ostracismo desde o escândalo com sua amante foi catapultado novamente para a mídia, cheio de discursos melados para tentar esconder o total fracasso da segurança francesa que permitiu a dois fanáticos religiosos que já tinham passagens pela polícia e toda ficha levantada, entrarem no prédio da revista, fuzilarem 11 pessoas, saírem tranquilamente pelas ruas como se estivessem fazendo compras, matarem um policial na calçada, pegarem o carro onde outro os aguardava e caírem fora sem serem importunados. Ah, se fosse a polícia brasileira! Depois que os dois irmãos extremistas foram assassinados dentro da gráfica e que outro terrorista foi morto depois de matar uma policial no dia anterior e cinco reféns dentro do mercado judeu, o presidente francês parabenizou seus soldados, chamo-os de heróis e seus ministros dizem que vão tomar novas medidas de segurança para conter o terrorismo. Parece que foi uma maravilha de operação, mas será que não teria sido melhor prender ao invés de matar os terroristas para extrair mais informações deles, mesmo que eles preferissem morrer? 

Um dos cartunistas sobrevivente declarou que o duro era ouvir daqueles que sempre foram alvos das suas charges que todos são Charlie. Eu não sou!