Translate

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eleição, essa nossa velha desconhecida

Domingo passado, dia 5 de outubro, eu estava na fila para cumprir o que muitos chamam de dever cívico - mas que, na realidade, é um direito cívico - quando comentei com os trabalhadores "voluntários" que eu também trabalhei durante muito tempo nas eleições. Lembrei a eles que hoje as coisas estão muito mais fáceis por causa da urna eletrônica, bem diferente daqueles idos tempos de final dos anos 1970 e meados dos anos 1980, quando tínhamos de assinar todas as cédulas eleitorais antes de ser iniciada a votação. Nunca dei tanto autógrafo na minha vida. 

Daí em diante, enquanto aguardava a minha vez de dedilhar as teclas da fantástica urna eletrônica, vieram à minha mente lembranças da infinidade de eleições em que participei como mesário. Curioso lembrar que eu sempre ficava na sessão das letras "m" a "o". Era um festival de Marias e Osvaldos! Uma Maria, especificamente, ficou na minha memória; aliás, até hoje não sei se era Maria José ou José Maria. Explico: tecnicamente, tratava-se de uma mulher já que o nome era Maria José; ocorre que saber o nome não necessariamente significa distinguir o sexo. Pois é. Por que será que estou me lembrando de um fato que aparentemente nada tem a ver com eleição?

Um grande salto foi dado da votação em papel para a votação eletrônica, não só do ponto de vista tecnológico, mas, principalmente, do ponto de vista dos costumes da nossa velha sociedade. Explico melhor, naquela época em que eu tinha de chegar cedo à zona eleitoral para ficar assinando cédulas em papel, seria inadmissível eu formular qualquer comentário para tentar esclarecer a sexualidade da Maria José ou do José Maria, visto que isso era um tabu social que nada tinha a ver com o fato político. Hoje, ao contrário, a sexualidade não só está presente no debate político como poder mudar os rumos das pesquisas eleitorais. Estão aí Marina Silva e o Levi Fidélix, angustiados, a me dar razão. 

A Marina Silva, por exemplo, começou a despencar do céu de brigadeiro quando voltou atrás em um ponto crucial do seu programa de partido relativo aos direitos civis de homossexuais, pressionada que foi por pastores evangélicos capitaneados na figura de um homofóbico Malafaia. Já o Levi Fidélix, figura folclórica e até simpática perante a opinião pública na sua carreira de candidato abaixo de um ponto percentual, deve estar se perguntando até hoje por que não falou de aerotrem ao invés de aparelho excretor naquele maldito debate.

Já vivi muitas eleições, mesmo antes de ser mesário e já vi muitos candidatos as perderem justamente por terem derrapado em temas não políticos. Quem não se lembra de FHC ter perdido uma eleição à prefeitura de São Paulo por ter se sentado antecipadamente na cadeira de prefeito que acabou ficando para Jânio Quadros, o tal do fi-lo porque qui-lo? Ou de outra em que o mesmo FHC foi derrotado por ficar cheio de nhémnhém diante de uma simples pergunta: o senhor acredita em Deus? Da mesma forma, o também folclórico Eduardo Suplicy derrapar na curva ao não saber dizer o preço de um pãozinho durante um debate na Globo? Ou ainda, o incansável Lula, trocar a camiseta suada por um terno de grife e ganhar a eleição paz e amor e pôr fim à sua carreira de eterno candidato?

Ou seja, meu amigos, neste entremeio de primeiro para segundo turno, vale lembrar que, não obstante discussões acaloradas sobre quais dos inúmeros candidatos aos inúmeros cargos disponíveis por este Brasil afora são populares e não populistas; quais realmente conhecem os problemas do povo brasileiro; os que realmente são provedores de mudanças; os que são profissionais políticos e não políticos profissionais; os caciques que perderam a confiança dos seus índios e os índios que vivem em busca de novos caciques; quais os que representam o futuro e não o passado; quais os que realmente conhecem a arte da política e não só a da tiririca; os que só têm imagem e marqueteiros por trás; os que não têm nem imagem nem marqueteiros e por aí vai, não menos importante do que conhecer todos os detalhes do mundo político seja também ter as respostas para perguntas tão simples quanto: o senhor é espada? já fumou uma tora? é autossustentável? tá mais pro diabo do que pra Deus? joga nas duas? deixaria seu filho brincar com um veadinho? a senhora calça que número? se o estupro é inevitável a senhora relaxa e goza? o senhor se submeteria a um tratamento pra virar macho?

Baixaria? Pergunta pro Fidélix e pra Marina!