Translate

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Reflexões pós-urnas

Domingo à tarde, enquanto a maioria esmagadora da população aguardava ansiosa o resultado das urnas, eu me dedicava à leitura do livro Por que perdemos nossos ideais?, de Leonardo Zoccaratto FerreiraDois grandes méritos deste livro residem na sua capacidade de ser incômodo e provocador. Aconselho a leitura, apesar de saber que muitos podem não gostar da sensação de incômodo e de provocação. É gratuito, você pode baixar no seguinte endereço:

http://escola-de-filosofia.webnode.com/textos-e-livros/meus-livros/ 

É um bom teste para a sua tolerância a ideias pouco convencionais ou mesmo contrárias às suas. Da leitura desta obra calcada na filosofia do martelo, cujo principal representante foi o filósofo alemão Friedrich Nietzche, é que surgiu a ideia de escrever estas reflexões pós-urnas. O que vem a seguir pode causar revolta em petistas, tucanos, gregos e baianos que racharam o País ao meio na mais acirrada eleição dos últimos tempos. Sejam tolerantes e não crucifiquem o Leonardo, nem a mim, por favor!

Vamos às reflexões. O que é a política? De uma vez por todas vamos abandonar a ideia ingênua que temos da política e enxergá-la como de fato ela é: um microcosmo escancarado da vida cotidiana. As regras que regem a política são estas: conquiste e mantenha o poder. Para este fim, tudo é válido. E assim, já estamos prontos para perceber que esta norma não é específica do mundo político, ela é mesmo a matriz do comportamento humano. Palavras do Leonardo, grifos meus. 

E ele continua: A política é, por assim dizer, apenas o fenômeno, a manifestação mais evidente que temos de como nossa natureza opera. O que ofende na política é a terrível visão da verdade. A vida é uma troca de favores, barganhas, escolhas entre perdedores e vencedores, um jogo cruel em busca de submissão. O que no resto da sociedade é uma batalha velada, escondida, blindada por um escudo de mentiras e criações fantasiosas que usamos todos os dias para viver e nos relacionar, sonhos estúpidos sobre como a realidade deveria ser e que chamamos de ética, encontra na política a face mais escrachada da realidade, um terreno privilegiado de observação e estudo da natureza humana. É na política onde somos capazes de com mais facilidade conhecer o ser humano e ver que o que existe é uma busca frenética por poder individual, buscando fazer minhas teses triunfarem.

É este o terreno onde só sobrevive o mais forte, aquele com estômago suficiente para abandonar seus sentimentalismos morais e mergulhar de cabeça no jogo. É lá onde reina a barganha: Você é importante na medida da sua influência. 

O que é a influência? É a medida de dependência que os outros atores políticos tem de você e se manifesta na sua capacidade de cobrar favores e de, por meio da chantagem, fazer as coisas acontecerem. Porque boas ideias e bons discursos nunca conquistaram nada na política. Quem faz acontecer é quem mete a mão na lama e adere ao jogo. A regra se materializa em dois vetores: Faça de tal maneira a ganhar em independência com relação aos outros e, ao mesmo tempo, faça com que os outros jogadores sejam extremamente dependentes de ti. Esta é a equação de poder. Teu poder será tão alto quanto mais você for independente e mais os outros forem dependentes de ti

Portanto, nunca desperdice uma oportunidade de ter pessoas em sua mão. Elas só farão o que você deseja se te temerem. O medo é a norma do jogo. A política é uma selva. Trate de ser um leão nesta selva, assegure mecanismos para que  todos te temam, porque só daí vem o respeito, e só assim você terá a chance de fazer o que deseja. Não tenha pena ou receio de esmagar seus inimigos, mas seja cauteloso. Avalie o momento correto de tomar cada atitude. Tenha consciência também que não é o povo que te sustenta no poder. Existem forças atuantes muito mais importantes e é com elas que deves se preocupar. O povo, quando muito, está aí para servir de massa de manobra, quando útil. Use-os a este fim quando julgar necessário, mas saiba que nenhum governo se sustenta no povo, até porque este sempre foi conduzido, ao invés de conduzir

É uma tolice achar que o povo governará. A maioria das pessoas não se importa, não querem se desgastar com a politica. Tudo o que elas querem é ver seus problemas resolvidos, mas não estão dispostas a derramar sangue para isto. Todos os grandes movimentos da história foram conduzidos por líderes que nunca deram muitas satisfações aos seus seguidores, apoiando sua liderança muito mais no carisma, na emoção, na energia e convencimento do que em argumentos lógicos. Use isto, use a retórica. Oferecer aquilo que a massa quer ouvir é a grande marca do grande líder.

A política não tem como objeto o bem comum, não tem como finalidade construir uma sociedade mais justa e fraternanão é um lugar para corações moles e mentes otimistas. É um lugar sujo, feio, acre, e acima de tudo, humano. É o retrato mais fiel do nosso modo de vida. É a existência sem cortinas, sem a bruma que nos enfeitiça no dia a dia, que insiste em mostrar um mundo mais quente do que realmente é. 

A política é um espaço de luta, todos são seus inimigos em potencial, só existem aliados circunstanciais. É o lugar onde ninguém faz nada se não tiver algo a oferecer. É o lugar onde tudo tem um preço, e se você quer uma coisa, tem que comprar. Só é possível atuar neste terreno se você tiver moedas de troca. Quem tem coragem para disputar o jogo se habilite, mas esteja preparado.

Antes que você chame o Leonardo (e eu, por tabela) de reacionário, egoísta, desumano, cínico ou qualquer coisa do gênero, aconselho você a pensar bem no que ele diz porque o que existe de bom quando nos deparamos com ideias incômodas e provocadoras é justamente acender a fagulha da dúvida, da não aceitação, da vontade de provar que o outro está errado e a melhor maneira de fazer isso é justamente pensando, raciocinando. Fechar a porta ou desconstruir a imagem do outro não é o melhor caminho para o consenso. Eu, por exemplo, discordo de várias posições do Leonardo, mas reconheço que nada do que ele diz é gratuito. Tudo surgiu depois de muita reflexão, não foi um processo fácil e indolor. Coloque sempre o carimbo da dúvida em tudo o que você ouve ou que tentam passar como verdade absoluta. Como diria Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra

O momento que estamos vivendo é bem propício, afinal, ainda estamos fazendo o rescaldo das guerras travadas nos espaços físicos e virtuais da última campanha. 2015 está aí, indefinido, incerto, incompleto. Cada um de nós, brasileiros e brasileiras, tem sua contribuição a dar, de acordo com os interesses de cada um. Que tal começar tentando entender realmente o que significa interesse?