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segunda-feira, 27 de abril de 2015

E a privacidade, onde fica?

Fui criança e adolescente numa época completamente diferente da atual. Era mirradinho, bem diferente do que sou hoje; não que seja um Schwarzenegger, ganhei mais gordura do que músculos e passei dos 80. Na minha infância e adolescência fui vítima constante de bullying, sem ter a mínima ideia de que isso existia. Meu físico de mosquito da dengue não permitia que eu me destacasse em nenhum esporte, muito menos que fosse líder de gang escolar. Tive, é claro, de me adaptar para não sofrer. Já que não podia vencer no braço, o jeito era vencer, ou convencer, na garganta. Aprimorei, gradativamente, a minha capacidade de comunicação. O que não evitou, é óbvio, ser alvo de gracinhas dos alunos maiores.

Quando estava no ginásio, meu apelido era Leite Glória. Sabe por quê? Desmancha sem bater. As aulas de educação física eram um suplício para o pobre do Leite Glória. Eu precisava me destacar de outras formas, não só para fugir da perseguição dos meninos como, e principalmente, para atrair a atenção das meninas. É lógico que isso foi bom por que aprendi logo cedo a cativar as mulheres sem depender do meus olhos azuis nem dos meus músculos sarados.

Aprendi a imitar o Topo Gigio, aquele ratinho italiano que fez muito sucesso nos anos 70 e pronto, meu apelido já não era Leite Glória e sim Topo Gigio, muito mais charmoso e carinhoso. 

Isso não quer dizer que eu estava livre das gozações. Todo adolescente descobre mais cedo ou mais tarde que o mundo é cruel com as diferenças e se você não está no modelo padrão, seja em que época for, vai sofrer com isso. A diferença é que naquele tempo, a privacidade ainda era nosso refúgio. Fora da escola e da rua, a minha casa era meu refúgio. Passava momentos tranquilos lendo, desenhando, assistindo TV e brigando com meu irmãos; mas eram brigas internas, o mundo exterior não invadia nosso bunker familiar.

O que acontece hoje é que nossos jovens já não podem mais contar com esse bunker, a privacidade se foi, não de maneira imposta e sim por escolha (mesmo que essa escolha não seja tão pessoal como muitos acreditam). Os grandes responsáveis por isso são a internet, as redes sociais, os aplicativos móveis e ele, é claro, o celular; mas vou falar sobre isso na próxima crônica. Por enquanto, deixo a pergunta: E a privacidade, onde fica?