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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

É Friboy?

O centro das atenções no setor de carnes no Brasil deixou de ser o vegetariano Roberto Carlos. Em seu lugar entra a recém-indicada ministra da Agricultura Kátia Abreu (PMDB-TO). Isso porque o JBS, maior grupo empresarial de carnes do mundo, dono da marca Friboy e principal doador da campanha eleitoral neste ano no País faz lobby contra a indicação de Kátia pela presidenta reeleita Dilma Roussef. 

O JBS doou ao todo R$352 milhões nas eleições de 2014, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos quais R$69,2 milhões foram destinados à campanha de Dilma à reeleição. Também desembolsou R$ 61,2 milhões aos postulantes a uma vaga na Câmara dos Deputados e R$ 10,7 milhões aos candidatos ao Senado. Oras, uma das principais bandeiras levantadas pela presidenta é a da reforma política e, um dos principais pontos da reforma é justamente o que trata das doações de campanha por empresas privadas. 

Vejamos como reagirá a presidenta. Primeiro, porque ela detesta ser contestada (até mesmo por Lula, mas aí o buraco é mais embaixo!), segundo, porque boa parte do montante de doações do JBS foi justamente para a campanha dela e é lógico que ela sabe que esse dinheirinho todo não sai de graça.

Eu, particularmente, acho que esse negócio de doação de campanha por empresas privadas ou públicas deveria acabar de vez ou, no mínimo ser controlado porque, como eleitor, me sinto ludibriado. Pessoa jurídica não vota, só quem vota somos nós, cidadãos de carne e osso. Depois que votamos, qual o poder individual que cada um de nós tem para influenciar nas decisões do governo que elegemos? Nenhum! Agora, gigantes como o JBS e todas as construtoras envolvidas na Operação Lava-Jato além de muitas outras empresas que não aparecem no noticiário político não só têm o poder de influenciar decisões de governo como ganhar muito dinheiro com elas, muito mais do que os relés milhões que doaram.

A senadora Kátia Abreu, que é presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) e uma das principais lideranças do agronegócio no País, não recebeu um único tostão do JBS, mas arrecadou quase R$ 7 milhões neste ano – incluindo doação de R$ 100 mil realizada pelo frigorífico Minerva, concorrente do JBS.

Existe hoje uma guerra nos bastidores sobre o comando na Agricultura. Como representante dos pecuaristas, a senadoraassumiu uma posição de ataque à empresa de Joesley Batista, um dos donos do grupo JBS. Os criadores de gado temem a concentração de mercado que a empresa exerce cada vez mais, influenciando no valor da carne vendida por eles. Em discurso no Congresso, em agosto de 2013, a senadora protestou: “Vá e diga que a sua carne é boa, que tem boa qualidade, que é produzida em frigoríficos de primeira. Mas não diga que é a única que o povo brasileiro pode comer.

O Ministério da Agricultura acumula uma série de decisões favoráveis ao JBS; mas, em outubro passado, a Justiça impôs derrota ao ministério por ter beneficiado o JBS. Determinou a aplicação de multa diária de R$ 100 mil caso não fosse suspensa uma limitação à exportação pelos Entrepostos de Carnes e Derivados (ECDs), operados por pequenos frigoríficos, conforme determinado pela Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA), cujo titular, Rodrigo Figueiredo, é apadrinhado do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ).

Em setembro, menos de dois meses após proibir o uso de expressões como “especial” e “premium” em rótulos de carne, a SDA desobedeceu a própria regra para atender demanda do JBS. Assim que o nome da senadora foi indicado pela presidenta, despontaram as reclamações do PT e dos movimentos sociais contra Kátia Abreu. O JBS acaba de se juntar a eles, mesmo que a sua diretoria não confirme o lobby que está sendo feito contra a senadora. 

Segundo assessores do Planalto, a presidenta já decidiu que após o dia 15 de dezembro Kátia Abreu vai ser oficialmente anunciada ministra da Agricultura. O que me leva a perguntar: será que a guerra da carne vai acabar em pizza?