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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

MEIO SÉCULO JOGADO NO LIXO

Que a economia brasileira está no buraco, não há como negar. Difícil é encontrar quem faça uma análise clara do período que estamos passando, desvinculada de tendências políticas - outra crise que compartilha o buraco da crise econômica. Neste domingo li uma entrevista com o economista Nicola Calicchio Neto, presidente da Mackinsey & Company, referência na prestação de consultorias à alta gestão de grandes empresas. Se você está preocupado com os rumos (ou a falta deles!) da nossa economia, aconselho prestar atenção nos pontos principais da entrevista:

O que o Brasil precisa fazer para voltar a crescer após a crise - para ter um bom plano, é preciso ter um bom diagnóstico. Recente pesquisa mundial do MGI (Mckinsey Global Institute) avalia o que ocorreu nos países nos últimos 50 anos e estima o que pode acontecer nos próximos 50. De 1900 a 1964, o Brasil foi um dos países que mais cresceram no mundo, junto com o Japão; mas em relação ao período de 1964 a 2014, a conclusão é dramática: o Brasil praticamente jogou no lixo os últimos 50 anos. Em 1964, um trabalhador nos Estados Unidos produzia 50 unidades de um produto enquanto o brasileiro produzia 10 (20% do trabalhador americano). Em 50 anos o americano dobrou a produtividade, passando a produzir 100 unidades (50 para 100), o brasileiro também, passando de 10 para 20. Eram necessários cinco trabalhadores brasileiros para fazer o mesmo que um americano. Passados 50 anos continua igual, ao passo que o chinês produzia uma unidade e passou para 20, aumentou em 20 vezes a produtividade. Há 50 anos o trabalhador brasileiro produzia 10 vezes mais que o chinês e hoje a relação é de um para um e isso tem um impacto enorme sobre o crescimento.

Crescimento brasileiro nos últimos 50 anos e nos próximos 50 - o Brasil cresceu 4% ao ano: 1,4% de produtividade e 2,6% graças ao aumento da massa trabalhadora, por dois motivos: 1) a entrada das mulheres no mercado de trabalho; 2) o "boom" demográfico (aumento elevado e repentino da população). A péssima notícia é que se nos próximos 50 anos, se não tivermos o aumento de 1,4% na produtividade, vamos crescer apenas 1,7% ao ano porque o efeito da força de trabalho feminina e do "boom" demográfico cairá para 0,3% ao ano. A única forma de o Brasil crescer de forma sustentável é aumentando a produtividade.

Crises políticas e econômicas no período - perdemos o vento a favor: os 2,6% ao ano que vieram do aumento da massa trabalhadora. Não adianta o Brasil estar na direção certa, precisa aumentar a velocidade. O bônus demográfico (quando o número de jovens em idade produtiva é maior que o de velhos) está chegando ao fim e é praticamente impossível virar um país velho e ficar rico; ou a gente fica rico logo ou vamos ter uma dificuldade imensa. Todo mundo quer mais saúde, mais qualidade na educação, trabalhar menos, viver mais e melhor; porém, para ter tudo isso é preciso ter um nível de produção maior para suportar os benefícios. Não dá para ter benefícios da Europa, com a renda da África. É imperativo acelerar a taxa de crescimento da produtividade. Nosso modelo de crescimento foi baseado no consumo e o investimento em infraestrutura é muito baixo: 17%, 18% do PIB. A China tem uma taxa de investimento superior a 40%. O investimento tem efeito multiplicador, faz o país crescer mais e mais rápido. Se o Brasil aumentar o investimento, vai ter um efeito multiplicador. 

Como aumentar o investimento - atraindo capital ou economizando para investir mais, independentemente de o dinheiro ser público ou privado, nacional ou internacional. Não dá para escolher este ou aquele dinheiro. O dinheiro está aí pelo mundo buscando oportunidades e o Brasil precisa criar oportunidades. 

Dificuldades para a criação de oportunidades - incerteza regulatória, o capital gosta de regras claras e de longo prazo. Sem isso, ou não atrai capital ou atrai a uma taxa mais alta. O retorno sobre o investimento é calculado tomando como base o risco. Quando tem mais incerteza, tem mais risco. Então, é preciso ter um retorno maior. O mundo está disposto a emprestar para os Estados Unidos a 0,25% e ao Brasil a 14% porque o risco percebido aqui é maior. 

Exemplo de uma amarra - para fazer investimento precisa de uma licença. Para ter a licença, precisa de um projeto aprovado, que precisa da licença. Como são muitos órgãos com responsabilidades não tão claras, um entra no espaço do outro. É preciso uma simplificação da máquina pública. Outro ponto: carga tributária elevada. 

Gestão da consequência - no setor privado, se eu não estou satisfeito com o seu desempenho, lhe dou um retorno; você não melhora, eu troco. No setor público, eu lhe dou um retorno, você não faz nada e eu também não faço nada. O setor público precisa ser mais eficiente porque já temos uma carga tributária elevada e investimos pouco. A única forma de sobrar mais para o investimento é gastando menos. Não significa tirar serviços da população e sim melhorar a qualidade e a eficiência dos serviços: fazer mais com menos. Isso é produtividade e as empresas privadas fazem o tempo todo. 

Melhorar qualificação da mão de obra - é inegável que a educação melhorou no Brasil; mas o ritmo é tão insuficiente que não dá para falar que estamos melhorando. No ritmo atual vamos chegar a um nível educacional bom daqui a 50, 70 anos. 

Informalidade - o Brasil reduziu a informalidade, mas a questão é a velocidade disso. As grandes empresas formais, com condição para crescer, têm dificuldades. A informais têm barreiras para crescer porque não aguentam ser formais. Precisamos mudar tudo isso para gerar um novo ciclo virtuoso. 

Meritocracia - o debate no Brasil está concentrado a dar direitos para todo mundo, quando a gente precisa discutir como premiar quem faz mais e melhor. É preciso fomentar a meritocracia na cultura nacional. Na escola, o aluno que vai melhor precisa ser admirado, não ser visto como nerd. O empresário de sucesso precisa ser admirado, não levar a comentários como: "Ahh, esse cara deve ter roubado". Professor que ensina melhor deve ser premiado financeiramente e ter reconhecimento. É preciso despertar nas pessoas, na sociedade brasileira, o desejo de fazer e ser melhor. As empresas privadas também precisam melhorar a gestão constantemente. Muitas empresas nacionais têm boas tecnologias e metodologias de gestão, mas precisam melhorar.

Nível de gestão das empresas brasileiras - poucas empresas brasileiras utilizam o big data (sistema de grande armazenamento de dados com grande velocidade) com eficiência. Se nos colocássemos nessas vanguarda, poderíamos dar saltos de produtividade. 

Por que o Brasil não avança - precisamos estabelecer prioridades nacionais. Prioridade número um: fazer um aumento dramático de produtividade. Quando todos tivermos consciência disso como sociedade, faremos. O caminho é ter em mente que pode até ser popular dizer "vamos dar benefícios para diferentes grupos da sociedade", mas tem uma lógica do direito adquirido no Brasil que é perversa. Aqui, o direito é sempre para mais e o dever, para menos. A conta nunca fecha. Um estudo recente do economista Marcos Lisboa mostra que é preciso criar uma CPMF a cada quatro anos para cobrir direitos adquiridos. Cada um consegue o seu; mas, no todo, perdemos. A narrativa precisa ficar clara: temos de elevar a produtividade atacando as questões mencionadas acima.

Corrida pelo crescimento no século 21 - não diria que o Brasil está atrasado, mas, com certeza, não é o mais proeminente. Não estamos capturando o nosso imenso potencial para ter um desenvolvimento maior e mais acelerado. Estamos vivendo em berço esplêndido, temos de ir à luta. Cada país tem um contexto; mas, vários países com problemas estão crescendo rapidamente. Na África, Nigéria e África do Sul; na Ásia, Cingapura. Quer melhor? Os Estados Unidos, uma economia madura, cresce mais que o Brasil. Não dá para aceitar isso. Para tudo! Vamos ver o que fazer para mudar.