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terça-feira, 23 de junho de 2015

Estado laico e livre arbítrio

Eu creio em Deus, nunca fui ateu. Minhas experiências religiosas, entretanto, foram frustrantes já no seu início. Depois que encontrei Deus, a religião caiu para segundo plano e vivo mais feliz e em paz com Ele. Sou evangélico e, ao dizer isso, posso estar atraindo a ira de várias pessoas ou, no mínimo, sendo julgado após a sucessão de polêmicas geradas por líderes religiosos que, ao invés de pregar a palavra de Deus dedicam-se a perseguir aqueles que pensam diferente em matéria de religião, sexualidade, política e outros assuntos humanos. 

Vivemos num país laico, embora muitos não saibam ou finjam não saber o que isso significa. Basicamente, um Estado laico não interfere na opção religiosa do seu povo e, principalmente, não elege uma religião como a oficial da nação em detrimento das outras. Isso quer dizer que, mesmo que o Congresso Nacional tenha uma bancada evangélica forte, não deve pautar as votações com ideias retrógradas, muito menos usar a casa para promover cultos, amparada por um presidente da Câmara que se diz evangélico, mas pouco valor dá a opiniões divergentes, como se o Congresso fosse a sua igreja. 

Estado laico remete, instantaneamente, a livre arbítrio, o maior legado que Deus deixou para o homem. Pelo livre arbítrio, cada um é responsável pelas suas escolhas. Sou cristão e tenho minhas convicções espirituais; porém, não posso recriminar ninguém por ter escolhido ser ateu, agnóstico, judeu, católico, espírita, umbandista, budista e por aí vai. Da mesma forma, ser evangélico não significa ser homofóbico, muito menos dar crédito a teorias ridículas sobre cura gay. Livre arbítrio significa tolerância quanto às diferenças porque cada ser humano é único, cada um é um mundo e deve ser respeitado em suas convicções, desde que essas convicções não sejam também favoráveis à intolerância.

Semana passada ocorreram várias situações lastimáveis mundo afora, desde o bate-boca entre o Ricardo Boechat e o pastor Malafaia ao lunático que matou pessoas a sangue frio dentro de uma tradicional igreja evangélica de fiéis negros, nos Estados Unidos. Como consequência, repercutem ainda protestos nas redes sociais de todos os matizes que me trazem a seguinte preocupação: na ânsia de combater a intolerância muitas pessoas não percebem que podem também estar sendo intolerantes ao generalizar e enfiar todos os cristãos ou evangélicos no mesmo saco do "mala". 

O que desencadeou o bate-boca entre Boechat e o pastor mala foi a pedra atirada em uma menina de 11 anos que caminhava por uma avenida do Rio de Janeiro em trajes de candomblé por homens, ao que tudo indica, pentecostais. Fato totalmente condenável que não merece a defesa de ninguém, muito menos de um pastor evangélico. Enganam-se os que pensam que o pastor Malafaia representa todos os evangélicos. A mim, não me representa em nada e nem me dou ao trabalho de ouvir seu blá-blá-blá homofóbico e preconceituoso. 

Concordo com Boechat no conteúdo, mas não na forma como ele, destemperadamente, soltou aquele palavrório todo, em muitos pontos de baixo nível para alguém na posição dele. Destempero também não leva a nada e ele é um âncora respeitável de um telejornal de alcance nacional, ganhador de vários prêmios, poderia sair-se melhor. Já a crônica do Fábio Porchat, ateu assumido, publicada no Estadão de domingo merece elogios. Serena e bem articulada, sem o uso desnecessário de palavrões. 

Antes que me chamem de moralista, deixo claro que não me agrada o uso exagerado de palavrões simplesmente porque esse hábito atual acaba comprometendo as formas de expressão da nossa língua, tão rica e tão mal tratada. Mas este é um assunto para nova discussão, finalizo com a postagem abaixo do House of Pizzas, um exemplo de como usar as palavras de forma mais elegante para sintetizar o duplo sentido sem recorrer a vocabulário chulo.